NÃO-FICÇÃO #3
Então saiu mais um bom Caderno de Não-Ficção #3 da Não Editora. Dessa vez, a cereja no topo do bolo fica por conta da entrevista com André Conti (editor do Quadrinhos da Cia), um texto masturbatório e não menos autoreferente (como não poderia ser?) sobre o novo, e consagrado, e muito vendido, e contestado Liberdade e a literatura brasileira (Jonathan Franzen e a literatura pau-mole): “me chama a atenção como 90% dos livros recentes brasileiros têm ao redor de 150 páginas. É quase como uma receita, uma equação: 150 páginas, o fôlego do autor ou do leitor. Não sei qual o pior cenário”. 

Até aqui estou contra poréns.  Mas me parece muito distanciamento da produção contemporânea (vulgo citar as qualidades do Cristóvão Tezza e da jovem, e gaúcha, e chapa da Não Editora – que publicou uma primeira compilação de contos – Carol Bensimon – ok! o Sinuca Embaixo D’água é realmente bom, mas é apenas um outro livro de pouco mais de 150 páginas também). E um eterno reverenciar, quase pré-canônico do especial David Foster Wallace do #1 e o destaque aoSebald no #2.
Um texto lá do Todo Prosa, do Sérgio Rodrigues, pra fazer circular (ainda mais) a confusão, contrapondo o texto do Caderno: “Meu incômodo com o franzenismo é de outra ordem. A enfática fulanização do argumento estético que sustenta esse circo pode dar ao leitor desavisado duas impressões erradas: a de que não há outros cultores contemporâneos da boa arte narrativa e a de que o único modo de cultuá-la é aquele, de uma grandiloquência aparentada do realismo muralista, que Jonathan Franzen emprega.”
Ainda falando mal, mas em outro texto: “Quase tudo parece estar no pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito, não por acaso os tempos verbais preferidos por quem tem pressa de sobrevoar cenas e montar logo um “painel social” – não é este, afinal, o grande bordão de venda do livro? Contrariando aquela velha lei das oficinas de ficção, Franzen conta (tells) mais do que mostra (shows). Na fórmula de Tchecov, opta por dizer que a lua está brilhando em vez de apresentar seu reflexo num caco de vidro.”



E, por último, um texto muito longo e muito bom do Franzen sobre o Facetook, comportamento, amor e nossos tempos, no Link, do Estadão.



“Ainda assim, a dor machuca, mas não mata. Quando levamos em consideração a alternativa – um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado e aprovado pela tecnologia – a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Levar uma vida indolor equivale a não viver. Até dizer a si mesmo, “Ah, vou deixar para depois esta história de amor e de dor, talvez para depois dos 30 anos” é como resignar-se a passar 10 anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser um consumidor (palavra que emprego no seu sentido mais pejorativo).”
No mais, nos faltam outros ‘Cadernos’, apesar do número pipocante de blogs que surgem por aí (ei!). E se há propósito, vamos lá!
Os livros da Não Editora ainda não aportaram no Espírito Santo. Compre no site. 
Leia o es-ton-te-an-te primeiro capítulo do Sinuca Embaixo D’água. 
Aqui o cau-da-lo-so primeiro capítulo do Liberdade.
Aqui o André Conti fala do Liberdade: (ie. 


http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Otnoe8PY21Y)

NÃO-FICÇÃO #3

Então saiu mais um bom Caderno de Não-Ficção #3 da Não Editora. Dessa vez, a cereja no topo do bolo fica por conta da entrevista com André Conti (editor do Quadrinhos da Cia), um texto masturbatório e não menos autoreferente (como não poderia ser?) sobre o novo, e consagrado, e muito vendido, e contestado Liberdade e a literatura brasileira (Jonathan Franzen e a literatura pau-mole): “me chama a atenção como 90% dos livros recentes brasileiros têm ao redor de 150 páginas. É quase como uma receita, uma equação: 150 páginas, o fôlego do autor ou do leitor. Não sei qual o pior cenário”. 

Até aqui estou contra poréns.  Mas me parece muito distanciamento da produção contemporânea (vulgo citar as qualidades do Cristóvão Tezza e da jovem, e gaúcha, e chapa da Não Editora – que publicou uma primeira compilação de contos – Carol Bensimon – ok! o Sinuca Embaixo D’água é realmente bom, mas é apenas um outro livro de pouco mais de 150 páginas também). E um eterno reverenciar, quase pré-canônico do especial David Foster Wallace do #1 e o destaque aoSebald no #2.

Um texto lá do Todo Prosa, do Sérgio Rodrigues, pra fazer circular (ainda mais) a confusão, contrapondo o texto do Caderno: “Meu incômodo com o franzenismo é de outra ordem. A enfática fulanização do argumento estético que sustenta esse circo pode dar ao leitor desavisado duas impressões erradas: a de que não há outros cultores contemporâneos da boa arte narrativa e a de que o único modo de cultuá-la é aquele, de uma grandiloquência aparentada do realismo muralista, que Jonathan Franzen emprega.”

Ainda falando mal, mas em outro texto: “Quase tudo parece estar no pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito, não por acaso os tempos verbais preferidos por quem tem pressa de sobrevoar cenas e montar logo um “painel social” – não é este, afinal, o grande bordão de venda do livro? Contrariando aquela velha lei das oficinas de ficção, Franzen conta (tells) mais do que mostra (shows). Na fórmula de Tchecov, opta por dizer que a lua está brilhando em vez de apresentar seu reflexo num caco de vidro.”


E, por último, um texto muito longo e muito bom do Franzen sobre o Facetook, comportamento, amor e nossos tempos, no Link, do Estadão.

“Ainda assim, a dor machuca, mas não mata. Quando levamos em consideração a alternativa – um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado e aprovado pela tecnologia – a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Levar uma vida indolor equivale a não viver. Até dizer a si mesmo, “Ah, vou deixar para depois esta história de amor e de dor, talvez para depois dos 30 anos” é como resignar-se a passar 10 anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser um consumidor (palavra que emprego no seu sentido mais pejorativo).”

No mais, nos faltam outros ‘Cadernos’, apesar do número pipocante de blogs que surgem por aí (ei!). E se há propósito, vamos lá!

Os livros da Não Editora ainda não aportaram no Espírito Santo. Compre no site. 

Leia o es-ton-te-an-te primeiro capítulo do Sinuca Embaixo D’água. 

Aqui o cau-da-lo-so primeiro capítulo do Liberdade.

Aqui o André Conti fala do Liberdade: (ie. 

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Otnoe8PY21Y)

O ROMANCE BRASILEIRO NA ERA DO MARKETING
A nota, discreta, saiu no “Diário Oficial da União”: desde o último dia 13, uma produtora paulistana está autorizada a captar recursos, via Lei Rouanet, para financiar viagens cujo objetivo é inspirar um grupo de autores a escrever romances.
Em tempos não muito distantes, recorrer ao Ministério da Cultura para financiar um projeto que parecia mais vocacionado para o Ministério do Turismo inflamou tanto os ânimos que o pai da ideia acabou desistindo do pleito e financiou as viagens do próprio bolso.
Era 2007, e o projeto, o Amores Expressos, agitou rancores e protagonizou os dias mais conturbados desde que o meio literário brasileiro descobriu a internet. Um dos questionamentos dizia respeito à legitimidade de uma literatura financiada por fora do esquema tradicional, de contratos de edição, vendas e direitos autorais de livros.
Em outras palavras, quando a feitura de romances se acerta entre escritores, produtoras e ministérios, uma figura pode parecer dispensável ou obsoleta: o leitor.
ISENÇÃO FISCAL
O novo projeto, chamado Redescobrindo o Brasil, sai com alguns pés de vantagem. O aval do governo para captação de R$ 672 mil via isenção fiscal já foi dado. Como prevê a Lei Rouanet, o dinheiro ainda não está garantido, já que antes os produtores precisam angariar o interesse de empresas em investir. Isso até pode ser facilitado pelo fato de as viagens serem dentro do país, e não para o exterior, como era no Amores Expressos.
O Redescobrindo o Brasil é uma espécie de filhote mais modesto do Amores Expressos, embora a comparação não seja do agrado da escritora Adriana Lisboa, uma das idealizadoras da iniciativa.
“Pensei no projeto quando a editora americana Whereabouts me convidou a ter contos no livro ‘Brazil, a Traveler’s Literary Companion’, junto com Clarice Lispector, Dalton Trevisan e outros”, disse a autora à Folha. “Eles fizeram um mapeamento literário organizado por regiões usando os contos. Imaginei que seria interessante algo do gênero com livros inteiros.”
Goste-se ou não da comparação, é inegável que o novo projeto se beneficia da porta aberta pelo projeto de 2007, que tanta dor de cabeça causou ao produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features.
A curadoria é dividida entre Adriana e o ficcionista Luiz Ruffato. Ao todo, a coleção deve ter 14 romances escritos por 14 autores convidados a passar 15 dias em 14 diferentes capitais brasileiras. A ideia é que todos estejam publicados e traduzidos para a Feira de Frankfurt de 2013, quando o Brasil será o país homenageado.
INEDITISMO
Com o Amores Expressos, Teixeira inaugurou um método de produção de livros no Brasil. “De certa maneira, ele pagou o preço do ineditismo”, avalia o ficcionista e jornalista Sérgio Rodrigues. “Era a primeira vez que se fazia um projeto de ativamente produzir livros, com um projeto de marketing mais amplo envolvido.”
Na ocasião, Rodrigues fez críticas ao projeto em seu blog, Todoprosa, hoje no portal da “Veja”. A caixa de comentários do blog virou, como diz Rodrigues, “uma caixa de ressonância de malucos de todo o Brasil, contra e a favor”. “Até agora, o Rodrigo estava correndo meio sozinho nisso. Há certa ousadia, porque é um mercado originalmente de vendas fracas”, diz.
A notícia foi dada pela Ilustrada, em março de 2007, em texto não propriamente crítico, mas sob o provocativo título “Bonde das letras”. Uma semana depois, a Ilustrada voltou ao tema, desta vez buscando classificar as diferentes irregularidades em que o projeto de Teixeira poderia incorrer, incluindo a acusação de configurar “formação de panelinhas”.
A “Veja” publicou reportagem ácida com caricaturas dos participantes, entre os quais estão alguns dos autores mais respeitados do país, como Bernardo Carvalho, Sérgio Sant’Anna e o próprio Ruffato.
O valor orçado para o Amores Expressos era de mais de R$ 1 milhão. Uma solicitação chegou a ser feita ao MinC, mas o pedido foi arquivado sem que Teixeira tivesse dado entrada nos documentos. “Era um direito a que eu tinha, o de tentar, mas preferi desistir.”
FILMES
No fim, tudo ficou em R$ 510 mil, saídos dos bolsos dele e de dois sócios. A estratégia era clara: obter 16 romances que pudessem render filmes —a cessão de direitos cinematográficos fazia parte do contrato. Teixeira diz que, se três dos livros virarem filmes, o projeto “já se paga”: “Nunca foi a ideia fazer 16 filmes. Queria pautar para ver o que resultava disso”.
Cada viagem saiu por volta de R$ 30 mil, incluindo direitos autorais e custos de viagem, com cachê. No Redescobrindo o Brasil, cada livro sairá por R$ 48 mil, aí incluídos os custos de edição, que não estavam contemplados no projeto de Teixeira.
Os romances da série Amores Expressos vêm saindo pela Companhia das Letras, que não é obrigada a publicar todos e se encarrega dos custos editoriais, como faz com qualquer outro de seus livros.
Já no Redescobrindo o Brasil, a ideia é que a editora carioca Casa da Palavra publique todos os romances, segundo Adriana Lisboa. “Estamos levando fé de que os 14 vão escrever livros dignos disso.”
Ela própria não entrou em acordo com a Companhia das Letras e deixou inédito o seu romance do Amores Expressos, ambientado em Paris. O mesmo aconteceu com André de Leones, que lançou pela Rocco o único livro do projeto ambientado no Brasil (São Paulo) —e que está entre os autores do projeto de Adriana e Ruffato.
No Redescobrindo o Brasil, a cláusula audiovisual não está inclusa. “Se os livros despertarem o interesse de cineastas, ótimo”, diz Adriana. A terceira ponta é a agente literária Lúcia Riff, que tem autores agenciados entre os convocados: Beatriz Bracher (Belém), Maria Valéria Rezende (Porto Alegre), Lívia Garcia-Roza (Salvador), João Anzanello Carrascoza (Natal), Flávio Carneiro (São Paulo) e a própria Adriana, que não vai escrever.
CENA
“O importante é movimentar o mercado. Há gente criticando, outros projetos aparecendo. Mesmo que nenhum dos livros fosse uma obra-prima, o Amores Expressos já teria esse mérito”, diz o escritor Ronaldo Bressane, amigo de Rodrigo Teixeira que não entrou em nenhum dos dois projetos.
O Amores Expressos ainda não se pagou. Dois filmes estão em pré-produção: “Cordilheira”, baseado no livro de Daniel Galera (Buenos Aires), tem previsão de ser filmado no fim de 2012, por Carolina Jabor. Outro, que ainda demora, é “O Filho da Mãe”, adaptação do romance de Bernardo Carvalho ambientado em Moscou. Dirigido por Karim Aïnouz, não terá vínculo com dinheiro nacional, diz Teixeira, já que não há personagens brasileiros.
Além disso, o filme baseado no livro de Ruffato (Lisboa) está sendo realizado por uma produtora portuguesa. Segundo Teixeira, há gente interessada no de Chico Mattoso (Havana) e no de Sérgio Sant’Anna (Praga). O de Joca Reiners Terron (Cairo) e o de Lourenço Mutarelli (Nova York) Teixeira diz querer ele mesmo produzir.
EXTERIOR
Criticada no Brasil, a iniciativa foi elogiada no exterior. “Os estrangeiros valorizaram mais. Recebi e-mails de editores e autores enaltecendo a ideia das viagens e o fato de isso ser feito com vista a adaptações cinematográficas”, diz Teixeira.
Segundo ele, isso animou o escritor americano Denis Johnson a vender os direitos de “Ninguém se Mexe” (Companhia das Letras) à RT Features. “Além disso, fechamos parcerias com Scott Rudins, produtor de cinema que investe em livros, e com a McSweeney’s, editora do Dave Eggers.”
O pedido inicial do Redescobrindo o Brasil ao MinC foi de R$ 1 milhão. Como foram aprovados R$ 672 mil, foi preciso pensar em cortes cá e lá. Com isso, da ideia inicial de duas viagens de 15 dias por autor, restou uma. Cada viagem está orçada em R$ 6.000, mais um cachê de R$ 10 mil por escritor.
Se o Amores Expressos foi criticado por focar um tema anacrônico na literatura no século 21, seu correspondente nacional incorre num outro risco —terão os autores coragem de retratar mazelas de locais visitados, tendo em vista que empresas locais patrocinariam os títulos, ou farão relatos para o turismo local gostar?
CRÍTICA
Resta saber se o Amores Expressos produziu boa literatura. Para Sérgio Rodrigues, dos sete livros que saíram até agora, o resultado ficou “um pouco abaixo do investimento e do barulho que se fez”. “Não me parece que tenha saído nenhum grande livro, fora o do Bernardo Carvalho, que faria um grande livro de qualquer jeito.”
O crítico e poeta Alcides Villaça, que leu só o de Ruffato, avalia que “o tema do amor entrou lateralmente. O tema que conta é o do desajuste cultural vivido pelo brasileiro pobre e desenraizado em Lisboa”. O colunista da Folha Manuel da Costa Pinto diz que, “se a coisa da história de amor era uma brincadeira que soava anacrônica, os autores souberam lidar com isso de maneira irônica. Foi uma brincadeira que eles transgrediram.”
O projeto rendeu também uma resposta galhofeira do pernambucano Marcelino Freire, escritor tão agitador cultural quanto avesso à trabalheira que dá inscrever projetos para captação de recursos pelo MinC. Dele nasceu o “projeto” Que Viagem, pelo qual Marcelino mandou autores desconhecidos a lugares “para onde os escritores realmente vão”, como o “Inferno” e a “Casa da Mãe Joana”. Os livros saem pela independente Edith, que Marcelino estreou no ano passado e pela qual lançou seu recente “Amar É Crime”.
PRODUTORA
Se Rodrigo Teixeira queria obter boas histórias para filmar, o que quer a produtora Motirô, do Redescobrindo o Brasil? “É um escritório recente”, diz um dos sócios, Osvaldo Alvarenga, “montado em janeiro e focado em teatro e literatura”.
Entre os trabalhos da casa, estão uma peça inédita de Ferreira Gullar, “O Homem Como Invenção de Si Mesmo” (2009) e uma série chamada “Aqui Nasceu a Literatura Brasileira”, com fotos de Márcia Zoet e textos de Ruffato, sobre as casas onde nasceram e viveram grandes autores brasileiros. Os dois foram aprovados para captação de recursos via Lei Rouanet.
A meta agora é publicar em julho os dois primeiros livros do Redescobrindo —o de Tatiana Salem Levy (São Luís) e o de Flávio Carneiro—, para já serem apresentados a editores internacionais.
A ver se os autores pegam o ritmo. Quando o Amores Expressos foi anunciado, esperava-se que todos os títulos saíssem em quatro anos. Perto do fim do prazo, menos da metade dos livros encomendados chegou às lojas.
RAQUEL COZERDA FOLHÃO DE SÃO PAULO

O ROMANCE BRASILEIRO NA ERA DO MARKETING

A nota, discreta, saiu no “Diário Oficial da União”: desde o último dia 13, uma produtora paulistana está autorizada a captar recursos, via Lei Rouanet, para financiar viagens cujo objetivo é inspirar um grupo de autores a escrever romances.

Em tempos não muito distantes, recorrer ao Ministério da Cultura para financiar um projeto que parecia mais vocacionado para o Ministério do Turismo inflamou tanto os ânimos que o pai da ideia acabou desistindo do pleito e financiou as viagens do próprio bolso.

Era 2007, e o projeto, o Amores Expressos, agitou rancores e protagonizou os dias mais conturbados desde que o meio literário brasileiro descobriu a internet. Um dos questionamentos dizia respeito à legitimidade de uma literatura financiada por fora do esquema tradicional, de contratos de edição, vendas e direitos autorais de livros.

Em outras palavras, quando a feitura de romances se acerta entre escritores, produtoras e ministérios, uma figura pode parecer dispensável ou obsoleta: o leitor.

ISENÇÃO FISCAL

O novo projeto, chamado Redescobrindo o Brasil, sai com alguns pés de vantagem. O aval do governo para captação de R$ 672 mil via isenção fiscal já foi dado. Como prevê a Lei Rouanet, o dinheiro ainda não está garantido, já que antes os produtores precisam angariar o interesse de empresas em investir. Isso até pode ser facilitado pelo fato de as viagens serem dentro do país, e não para o exterior, como era no Amores Expressos.

O Redescobrindo o Brasil é uma espécie de filhote mais modesto do Amores Expressos, embora a comparação não seja do agrado da escritora Adriana Lisboa, uma das idealizadoras da iniciativa.

“Pensei no projeto quando a editora americana Whereabouts me convidou a ter contos no livro ‘Brazil, a Traveler’s Literary Companion’, junto com Clarice Lispector, Dalton Trevisan e outros”, disse a autora à Folha. “Eles fizeram um mapeamento literário organizado por regiões usando os contos. Imaginei que seria interessante algo do gênero com livros inteiros.”

Goste-se ou não da comparação, é inegável que o novo projeto se beneficia da porta aberta pelo projeto de 2007, que tanta dor de cabeça causou ao produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features.

A curadoria é dividida entre Adriana e o ficcionista Luiz Ruffato. Ao todo, a coleção deve ter 14 romances escritos por 14 autores convidados a passar 15 dias em 14 diferentes capitais brasileiras. A ideia é que todos estejam publicados e traduzidos para a Feira de Frankfurt de 2013, quando o Brasil será o país homenageado.

INEDITISMO

Com o Amores Expressos, Teixeira inaugurou um método de produção de livros no Brasil. “De certa maneira, ele pagou o preço do ineditismo”, avalia o ficcionista e jornalista Sérgio Rodrigues. “Era a primeira vez que se fazia um projeto de ativamente produzir livros, com um projeto de marketing mais amplo envolvido.”

Na ocasião, Rodrigues fez críticas ao projeto em seu blog, Todoprosa, hoje no portal da “Veja”. A caixa de comentários do blog virou, como diz Rodrigues, “uma caixa de ressonância de malucos de todo o Brasil, contra e a favor”. “Até agora, o Rodrigo estava correndo meio sozinho nisso. Há certa ousadia, porque é um mercado originalmente de vendas fracas”, diz.

A notícia foi dada pela Ilustrada, em março de 2007, em texto não propriamente crítico, mas sob o provocativo título “Bonde das letras”. Uma semana depois, a Ilustrada voltou ao tema, desta vez buscando classificar as diferentes irregularidades em que o projeto de Teixeira poderia incorrer, incluindo a acusação de configurar “formação de panelinhas”.

A “Veja” publicou reportagem ácida com caricaturas dos participantes, entre os quais estão alguns dos autores mais respeitados do país, como Bernardo Carvalho, Sérgio Sant’Anna e o próprio Ruffato.

O valor orçado para o Amores Expressos era de mais de R$ 1 milhão. Uma solicitação chegou a ser feita ao MinC, mas o pedido foi arquivado sem que Teixeira tivesse dado entrada nos documentos. “Era um direito a que eu tinha, o de tentar, mas preferi desistir.”

FILMES

No fim, tudo ficou em R$ 510 mil, saídos dos bolsos dele e de dois sócios. A estratégia era clara: obter 16 romances que pudessem render filmes —a cessão de direitos cinematográficos fazia parte do contrato. Teixeira diz que, se três dos livros virarem filmes, o projeto “já se paga”: “Nunca foi a ideia fazer 16 filmes. Queria pautar para ver o que resultava disso”.

Cada viagem saiu por volta de R$ 30 mil, incluindo direitos autorais e custos de viagem, com cachê. No Redescobrindo o Brasil, cada livro sairá por R$ 48 mil, aí incluídos os custos de edição, que não estavam contemplados no projeto de Teixeira.

Os romances da série Amores Expressos vêm saindo pela Companhia das Letras, que não é obrigada a publicar todos e se encarrega dos custos editoriais, como faz com qualquer outro de seus livros.

Já no Redescobrindo o Brasil, a ideia é que a editora carioca Casa da Palavra publique todos os romances, segundo Adriana Lisboa. “Estamos levando fé de que os 14 vão escrever livros dignos disso.”

Ela própria não entrou em acordo com a Companhia das Letras e deixou inédito o seu romance do Amores Expressos, ambientado em Paris. O mesmo aconteceu com André de Leones, que lançou pela Rocco o único livro do projeto ambientado no Brasil (São Paulo) —e que está entre os autores do projeto de Adriana e Ruffato.

No Redescobrindo o Brasil, a cláusula audiovisual não está inclusa. “Se os livros despertarem o interesse de cineastas, ótimo”, diz Adriana. A terceira ponta é a agente literária Lúcia Riff, que tem autores agenciados entre os convocados: Beatriz Bracher (Belém), Maria Valéria Rezende (Porto Alegre), Lívia Garcia-Roza (Salvador), João Anzanello Carrascoza (Natal), Flávio Carneiro (São Paulo) e a própria Adriana, que não vai escrever.

CENA

“O importante é movimentar o mercado. Há gente criticando, outros projetos aparecendo. Mesmo que nenhum dos livros fosse uma obra-prima, o Amores Expressos já teria esse mérito”, diz o escritor Ronaldo Bressane, amigo de Rodrigo Teixeira que não entrou em nenhum dos dois projetos.

O Amores Expressos ainda não se pagou. Dois filmes estão em pré-produção: “Cordilheira”, baseado no livro de Daniel Galera (Buenos Aires), tem previsão de ser filmado no fim de 2012, por Carolina Jabor. Outro, que ainda demora, é “O Filho da Mãe”, adaptação do romance de Bernardo Carvalho ambientado em Moscou. Dirigido por Karim Aïnouz, não terá vínculo com dinheiro nacional, diz Teixeira, já que não há personagens brasileiros.

Além disso, o filme baseado no livro de Ruffato (Lisboa) está sendo realizado por uma produtora portuguesa. Segundo Teixeira, há gente interessada no de Chico Mattoso (Havana) e no de Sérgio Sant’Anna (Praga). O de Joca Reiners Terron (Cairo) e o de Lourenço Mutarelli (Nova York) Teixeira diz querer ele mesmo produzir.

EXTERIOR

Criticada no Brasil, a iniciativa foi elogiada no exterior. “Os estrangeiros valorizaram mais. Recebi e-mails de editores e autores enaltecendo a ideia das viagens e o fato de isso ser feito com vista a adaptações cinematográficas”, diz Teixeira.

Segundo ele, isso animou o escritor americano Denis Johnson a vender os direitos de “Ninguém se Mexe” (Companhia das Letras) à RT Features. “Além disso, fechamos parcerias com Scott Rudins, produtor de cinema que investe em livros, e com a McSweeney’s, editora do Dave Eggers.”

O pedido inicial do Redescobrindo o Brasil ao MinC foi de R$ 1 milhão. Como foram aprovados R$ 672 mil, foi preciso pensar em cortes cá e lá. Com isso, da ideia inicial de duas viagens de 15 dias por autor, restou uma. Cada viagem está orçada em R$ 6.000, mais um cachê de R$ 10 mil por escritor.

Se o Amores Expressos foi criticado por focar um tema anacrônico na literatura no século 21, seu correspondente nacional incorre num outro risco —terão os autores coragem de retratar mazelas de locais visitados, tendo em vista que empresas locais patrocinariam os títulos, ou farão relatos para o turismo local gostar?

CRÍTICA

Resta saber se o Amores Expressos produziu boa literatura. Para Sérgio Rodrigues, dos sete livros que saíram até agora, o resultado ficou “um pouco abaixo do investimento e do barulho que se fez”. “Não me parece que tenha saído nenhum grande livro, fora o do Bernardo Carvalho, que faria um grande livro de qualquer jeito.”

O crítico e poeta Alcides Villaça, que leu só o de Ruffato, avalia que “o tema do amor entrou lateralmente. O tema que conta é o do desajuste cultural vivido pelo brasileiro pobre e desenraizado em Lisboa”. O colunista da Folha Manuel da Costa Pinto diz que, “se a coisa da história de amor era uma brincadeira que soava anacrônica, os autores souberam lidar com isso de maneira irônica. Foi uma brincadeira que eles transgrediram.”

O projeto rendeu também uma resposta galhofeira do pernambucano Marcelino Freire, escritor tão agitador cultural quanto avesso à trabalheira que dá inscrever projetos para captação de recursos pelo MinC. Dele nasceu o “projeto” Que Viagem, pelo qual Marcelino mandou autores desconhecidos a lugares “para onde os escritores realmente vão”, como o “Inferno” e a “Casa da Mãe Joana”. Os livros saem pela independente Edith, que Marcelino estreou no ano passado e pela qual lançou seu recente “Amar É Crime”.

PRODUTORA

Se Rodrigo Teixeira queria obter boas histórias para filmar, o que quer a produtora Motirô, do Redescobrindo o Brasil? “É um escritório recente”, diz um dos sócios, Osvaldo Alvarenga, “montado em janeiro e focado em teatro e literatura”.

Entre os trabalhos da casa, estão uma peça inédita de Ferreira Gullar, “O Homem Como Invenção de Si Mesmo” (2009) e uma série chamada “Aqui Nasceu a Literatura Brasileira”, com fotos de Márcia Zoet e textos de Ruffato, sobre as casas onde nasceram e viveram grandes autores brasileiros. Os dois foram aprovados para captação de recursos via Lei Rouanet.

A meta agora é publicar em julho os dois primeiros livros do Redescobrindo —o de Tatiana Salem Levy (São Luís) e o de Flávio Carneiro—, para já serem apresentados a editores internacionais.

A ver se os autores pegam o ritmo. Quando o Amores Expressos foi anunciado, esperava-se que todos os títulos saíssem em quatro anos. Perto do fim do prazo, menos da metade dos livros encomendados chegou às lojas.

RAQUEL COZER
DA FOLHÃO DE SÃO PAULO

NÃO HÁ NADA LÁ
O selo Má Companhia, da Cia das Letras, acaba de reeditar o muito aclamado “Não há nada lá”, do Joca Terron.
O terceiro segredo de fátima
[Cristóvão Tezza - publicado originalmente na Cult 54, em janeiro de 2002]
O concurso promovido pela Cult, na categoria romance, indicou a presença dominante de quatro vertentes literárias, temáticas e formais. É claro que apareceram bons e maus textos em todas elas, e às vezes a mesma obra tocava em mais de uma linha, apenas reforçando o fato de que a boa literatura sempre escapa dos ideários fechados. Essa frágil classificação, esboçada aqui mais por uma primeira impressão do leitor do que pelo rigor da ciência, mostra em primeiro lugar a persistência no Brasil de uma mitologia rural – a idéia de um país natural, autêntico, puro, não contaminado, mesmo mágico, continua viva, realizando-se numa linguagem típica, na transcendência poética ou no picaresco; Guimarães Rosa, Jorge Amado e José Cândido de Carvalho seriam boas referências dessa linha.
Um segundo rumo vai em direção oposta: o da mitologia urbana, sob influência da televisão e do cinema, privilegiando a vida sem raízes, o impacto das grandes cidades no cotidiano, a violência e a solidão, com o predomínio do indivíduo (socialmente localizado) e da narração pessoal. A referência imediata aqui seria Rubem Fonseca, mas transparece nessa linha a presença subterrânea de uma tradição naturalista que vem de longe, de O Cortiço de Aloísio Azevedo a O Ventre de Cony, passando por várias formas e estilos de representação da “vida como ela é”. Uma terceira vertente é a intimista, o poder da memória em se fazer literatura, tanto a memória fragmentária das impressões pessoais (da infância, do tempo perdido, da inocência), intimismo cuja referência maior poderia ser Clarice Lispector, quanto a memória social, retomando os anos da ditadura numa polarização ainda sem distanciamento, e aqui Quarup, de Antonio Callado, seria o marco mais forte. Finalmente, aparece a literatura entendida como oficina do texto, o que normalmente se chama literatura experimental, um título em geral inadequado pelo que sugere de inacabado, ou mesmo apenas mal-acabado: aquilo que se experimenta como treinamento ou exercício para se chegar, quem sabe, ao objeto de arte. Há de tudo nessa gaveta; como pontos em comum, a concepção da própria literatura como o objeto principal do texto, a tendência a fundir prosa e poesia e o apagamento do sujeito psicológico, que cede lugar à presença mais fria da composição formal. Em geral, o leitor verá também os andaimes da obra enquanto ela se ergue, e, no extremo, a mensagem reiterada de que o que se está lendo é um objeto de artifício.
Você poderá gostar também de: Corpo Presente, de J. P. Cuenca e Snuff, de Chuck Palahniuk.
É exatamente esse o território em que se move o romance “Não há nada lá”, de Joca Reiners Terron, menção honrosa do concurso, quando então levava o título mais desconcertante de Retrato da Serpente menos a Presa. Numa composição bem amarrada, Joca Terron coloca juntos o célebre escritor beat William Burroughs (aportuguesado, não por acaso, como Guilherme Burgos), Raymond Roussel, um parisiense exótico que vivia num trailer, o brasileiro Torquato Neto, um certo Isidore Ducasse, que ficaria famoso como conde de Lautréamont, o poeta Arthur Rimbaud, o mítico pistoleiro Billy-the-Kid, o estranhíssimo poeta inglês Aleister Crowley e ainda Lúcia, a menina que ouviu com os irmãos os segredos de Fátima. Na edição em livro, o autor acrescentou um capítulo em que se comentam as biografias dos personagens, o que representa mais um registro de linguagem na composição – o texto que se comenta a si mesmo, com o jargão da enciclopédia.
A narração se inicia com o aparecimento fantástico de um tesseract, uma forma geométrica que William Burroughs vê no dia de sua morte, a partir de um livro que ele joga para o alto: “Não me parece ainda haver tempo para você neste mundo, meu velho. A perfeição, simplesmente, de uma hora para outra, deixou de ter lugar para nós. Me pergunto como seria a morte do livro. Diga-me, como morrem os objetos perfeitos?” Daí em diante, montando azulejos cortados com precisão no tempo e no espaço, tendo sempre o livro mágico como referência, Terron promove o encontro do Papa Pio XI com Raimundo Roussel em 1926, faz Torquato Neto conversar com Jaime Hendrix em 1970, flagra Ducasse no compartimento de um trem em 1867 furtando um exemplar de As Flores do Mal, “com um brilho fantasmagórico na capa”, de um “pederasta ancião”, assiste ao encontro de Rimbaud com o xerife Patrício Garret em 1881, vê Alistério Crowley se aproximando de Fernando Pessoa em 1930 e daí por diante. Em suma, a narração de “Não há nada lá” é um canto de paixão à literatura – “um viva à literatura, dizia o Bispo, somente a literatura, fundadora da realidade que conhecemos através da linguagem, construtura de mundos”. Ponto de confluência das histórias intercaladas, o terceiro segredo de Fátima, confessado a um certo bispo de Macau, vai explicar por vias tortas o sotaque português na tradução dos nomes estrangeiros.
Há uma graça que percorre o livro, fruto do cruzamento entre as situações surreais e o tom formal do narrador, de onde emerge por contraste uma hilaridade paródica. As convenções sociais tipificadas na linguagem vão se cobrindo sempre de caricatura: “O Santíssimo Padre Pio XI, meneando com precisão a isca lançada ao seu anfitrião, retirou uma espécie de sutiã que envolvia suas tetas volumosas e, sem mais delongas, mergulhou na espuma da banheira, deixando apenas a monumental barriga à altura da superfície, cabeçorra de um cachalote esguichando água no início de uma dança do acasalamento.”
A literatura de Terron é escancaradamente lúdica – Não há nada lá é um texto que diverte e se diverte – e, como sinal de sua geração (Terron nasceu em 68, quando o sonho, de fato, acabava), percorre todas as linguagens como quem brinca, sem se queimar com nenhuma. Assim, sua ponte para o passado salta as duas últimas décadas e reencontra, por exemplo, Cortázar e seus jogos de armar, no que eles têm de mais pesado (a dimensão ideológica). Do ingrediente mais leve, ressoa algo dos “modos de usar” de Georges Perec, a frieza puramente sintática, mas prazerosa, de armar o impossível. Nesse jogo, o controle remoto do autor olha em todas as direções ao mesmo tempo, o que é outro traço contemporâneo. A mitologia das gerações malditas, de Baudelaire a Burroughs, é agora retomada sem o vínculo terrível com a revolta essencial, visceral, sem acerto ou compromisso possível, que afinal está na origem da droga, do suicídio, da marginalidade assumida, da utopia, da negação, da inadequação absoluta ao mundo da ordem. É um imaginário já sem a dimensão da performance, figura de vitrine, atravessado pelo humor e não pela tragédia, que se realiza não no risco da praça pública, mas no limite da página. O livro, o objeto perfeito que Burroughs arremessa ao céu, a forma, é o ideário de referência, a marca de uma encruzilhada entre a memória e o futuro. Uma encruzilhada que vai, no embalo do fascínio pelo fragmento, assumindo o emprego paródico de linguagens estratificadas, dos chavões convencionais à gíria cotidiana, até se apropriar dos grafismos, flertar com a informação visual como reforço do texto, e mesmo com a “informação real”, uma espécie de nota de rodapé em forma de verbetes de enciclopédia.
O que se destaca no livro é o fato de que, mantendo-se fiel à exploração da experiência, Terron não se perde nela e, de fato, não abdica de um eixo a partir do qual todo o resto ganha substância. E, como toda boa literatura, mesmo quando imatura, ele nos diz menos sobre o seu assunto e muito mais sobre a diferença do seu olhar.

NÃO HÁ NADA LÁ

O selo Má Companhia, da Cia das Letras, acaba de reeditar o muito aclamado “Não há nada lá”, do Joca Terron.

O terceiro segredo de fátima

[Cristóvão Tezza - publicado originalmente na Cult 54, em janeiro de 2002]

O concurso promovido pela Cult, na categoria romance, indicou a presença dominante de quatro vertentes literárias, temáticas e formais. É claro que apareceram bons e maus textos em todas elas, e às vezes a mesma obra tocava em mais de uma linha, apenas reforçando o fato de que a boa literatura sempre escapa dos ideários fechados. Essa frágil classificação, esboçada aqui mais por uma primeira impressão do leitor do que pelo rigor da ciência, mostra em primeiro lugar a persistência no Brasil de uma mitologia rural – a idéia de um país natural, autêntico, puro, não contaminado, mesmo mágico, continua viva, realizando-se numa linguagem típica, na transcendência poética ou no picaresco; Guimarães Rosa, Jorge Amado e José Cândido de Carvalho seriam boas referências dessa linha.

Um segundo rumo vai em direção oposta: o da mitologia urbana, sob influência da televisão e do cinema, privilegiando a vida sem raízes, o impacto das grandes cidades no cotidiano, a violência e a solidão, com o predomínio do indivíduo (socialmente localizado) e da narração pessoal. A referência imediata aqui seria Rubem Fonseca, mas transparece nessa linha a presença subterrânea de uma tradição naturalista que vem de longe, de O Cortiço de Aloísio Azevedo a O Ventre de Cony, passando por várias formas e estilos de representação da “vida como ela é”. Uma terceira vertente é a intimista, o poder da memória em se fazer literatura, tanto a memória fragmentária das impressões pessoais (da infância, do tempo perdido, da inocência), intimismo cuja referência maior poderia ser Clarice Lispector, quanto a memória social, retomando os anos da ditadura numa polarização ainda sem distanciamento, e aqui Quarup, de Antonio Callado, seria o marco mais forte. Finalmente, aparece a literatura entendida como oficina do texto, o que normalmente se chama literatura experimental, um título em geral inadequado pelo que sugere de inacabado, ou mesmo apenas mal-acabado: aquilo que se experimenta como treinamento ou exercício para se chegar, quem sabe, ao objeto de arte. Há de tudo nessa gaveta; como pontos em comum, a concepção da própria literatura como o objeto principal do texto, a tendência a fundir prosa e poesia e o apagamento do sujeito psicológico, que cede lugar à presença mais fria da composição formal. Em geral, o leitor verá também os andaimes da obra enquanto ela se ergue, e, no extremo, a mensagem reiterada de que o que se está lendo é um objeto de artifício.

Você poderá gostar também de: Corpo Presente, de J. P. Cuenca e Snuff, de Chuck Palahniuk.

É exatamente esse o território em que se move o romance “Não há nada lá”, de Joca Reiners Terron, menção honrosa do concurso, quando então levava o título mais desconcertante de Retrato da Serpente menos a Presa. Numa composição bem amarrada, Joca Terron coloca juntos o célebre escritor beat William Burroughs (aportuguesado, não por acaso, como Guilherme Burgos), Raymond Roussel, um parisiense exótico que vivia num trailer, o brasileiro Torquato Neto, um certo Isidore Ducasse, que ficaria famoso como conde de Lautréamont, o poeta Arthur Rimbaud, o mítico pistoleiro Billy-the-Kid, o estranhíssimo poeta inglês Aleister Crowley e ainda Lúcia, a menina que ouviu com os irmãos os segredos de Fátima. Na edição em livro, o autor acrescentou um capítulo em que se comentam as biografias dos personagens, o que representa mais um registro de linguagem na composição – o texto que se comenta a si mesmo, com o jargão da enciclopédia.

A narração se inicia com o aparecimento fantástico de um tesseract, uma forma geométrica que William Burroughs vê no dia de sua morte, a partir de um livro que ele joga para o alto: “Não me parece ainda haver tempo para você neste mundo, meu velho. A perfeição, simplesmente, de uma hora para outra, deixou de ter lugar para nós. Me pergunto como seria a morte do livro. Diga-me, como morrem os objetos perfeitos?” Daí em diante, montando azulejos cortados com precisão no tempo e no espaço, tendo sempre o livro mágico como referência, Terron promove o encontro do Papa Pio XI com Raimundo Roussel em 1926, faz Torquato Neto conversar com Jaime Hendrix em 1970, flagra Ducasse no compartimento de um trem em 1867 furtando um exemplar de As Flores do Mal, “com um brilho fantasmagórico na capa”, de um “pederasta ancião”, assiste ao encontro de Rimbaud com o xerife Patrício Garret em 1881, vê Alistério Crowley se aproximando de Fernando Pessoa em 1930 e daí por diante. Em suma, a narração de “Não há nada lá” é um canto de paixão à literatura – “um viva à literatura, dizia o Bispo, somente a literatura, fundadora da realidade que conhecemos através da linguagem, construtura de mundos”. Ponto de confluência das histórias intercaladas, o terceiro segredo de Fátima, confessado a um certo bispo de Macau, vai explicar por vias tortas o sotaque português na tradução dos nomes estrangeiros.

Há uma graça que percorre o livro, fruto do cruzamento entre as situações surreais e o tom formal do narrador, de onde emerge por contraste uma hilaridade paródica. As convenções sociais tipificadas na linguagem vão se cobrindo sempre de caricatura: “O Santíssimo Padre Pio XI, meneando com precisão a isca lançada ao seu anfitrião, retirou uma espécie de sutiã que envolvia suas tetas volumosas e, sem mais delongas, mergulhou na espuma da banheira, deixando apenas a monumental barriga à altura da superfície, cabeçorra de um cachalote esguichando água no início de uma dança do acasalamento.”

A literatura de Terron é escancaradamente lúdica – Não há nada lá é um texto que diverte e se diverte – e, como sinal de sua geração (Terron nasceu em 68, quando o sonho, de fato, acabava), percorre todas as linguagens como quem brinca, sem se queimar com nenhuma. Assim, sua ponte para o passado salta as duas últimas décadas e reencontra, por exemplo, Cortázar e seus jogos de armar, no que eles têm de mais pesado (a dimensão ideológica). Do ingrediente mais leve, ressoa algo dos “modos de usar” de Georges Perec, a frieza puramente sintática, mas prazerosa, de armar o impossível. Nesse jogo, o controle remoto do autor olha em todas as direções ao mesmo tempo, o que é outro traço contemporâneo. A mitologia das gerações malditas, de Baudelaire a Burroughs, é agora retomada sem o vínculo terrível com a revolta essencial, visceral, sem acerto ou compromisso possível, que afinal está na origem da droga, do suicídio, da marginalidade assumida, da utopia, da negação, da inadequação absoluta ao mundo da ordem. É um imaginário já sem a dimensão da performance, figura de vitrine, atravessado pelo humor e não pela tragédia, que se realiza não no risco da praça pública, mas no limite da página. O livro, o objeto perfeito que Burroughs arremessa ao céu, a forma, é o ideário de referência, a marca de uma encruzilhada entre a memória e o futuro. Uma encruzilhada que vai, no embalo do fascínio pelo fragmento, assumindo o emprego paródico de linguagens estratificadas, dos chavões convencionais à gíria cotidiana, até se apropriar dos grafismos, flertar com a informação visual como reforço do texto, e mesmo com a “informação real”, uma espécie de nota de rodapé em forma de verbetes de enciclopédia.

O que se destaca no livro é o fato de que, mantendo-se fiel à exploração da experiência, Terron não se perde nela e, de fato, não abdica de um eixo a partir do qual todo o resto ganha substância. E, como toda boa literatura, mesmo quando imatura, ele nos diz menos sobre o seu assunto e muito mais sobre a diferença do seu olhar.

NÃO-FICÇÃO #3
Então saiu mais um bom Caderno de Não-Ficção #3 da Não Editora. Dessa vez, a cereja no topo do bolo fica por conta da entrevista com André Conti (editor do Quadrinhos da Cia), um texto masturbatório e não menos autoreferente (como não poderia ser?) sobre o novo, e consagrado, e muito vendido, e contestado Liberdade e a literatura brasileira (Jonathan Franzen e a literatura pau-mole): “me chama a atenção como 90% dos livros recentes brasileiros têm ao redor de 150 páginas. É quase como uma receita, uma equação: 150 páginas, o fôlego do autor ou do leitor. Não sei qual o pior cenário”. 

Até aqui estou contra poréns.  Mas me parece muito distanciamento da produção contemporânea (vulgo citar as qualidades do Cristóvão Tezza e da jovem, e gaúcha, e chapa da Não Editora – que publicou uma primeira compilação de contos – Carol Bensimon – ok! o Sinuca Embaixo D’água é realmente bom, mas é apenas um outro livro de pouco mais de 150 páginas também). E um eterno reverenciar, quase pré-canônico do especial David Foster Wallace do #1 e o destaque aoSebald no #2.
Um texto lá do Todo Prosa, do Sérgio Rodrigues, pra fazer circular (ainda mais) a confusão, contrapondo o texto do Caderno: “Meu incômodo com o franzenismo é de outra ordem. A enfática fulanização do argumento estético que sustenta esse circo pode dar ao leitor desavisado duas impressões erradas: a de que não há outros cultores contemporâneos da boa arte narrativa e a de que o único modo de cultuá-la é aquele, de uma grandiloquência aparentada do realismo muralista, que Jonathan Franzen emprega.”
Ainda falando mal, mas em outro texto: “Quase tudo parece estar no pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito, não por acaso os tempos verbais preferidos por quem tem pressa de sobrevoar cenas e montar logo um “painel social” – não é este, afinal, o grande bordão de venda do livro? Contrariando aquela velha lei das oficinas de ficção, Franzen conta (tells) mais do que mostra (shows). Na fórmula de Tchecov, opta por dizer que a lua está brilhando em vez de apresentar seu reflexo num caco de vidro.”



E, por último, um texto muito longo e muito bom do Franzen sobre o Facetook, comportamento, amor e nossos tempos, no Link, do Estadão.



“Ainda assim, a dor machuca, mas não mata. Quando levamos em consideração a alternativa – um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado e aprovado pela tecnologia – a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Levar uma vida indolor equivale a não viver. Até dizer a si mesmo, “Ah, vou deixar para depois esta história de amor e de dor, talvez para depois dos 30 anos” é como resignar-se a passar 10 anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser um consumidor (palavra que emprego no seu sentido mais pejorativo).”
No mais, nos faltam outros ‘Cadernos’, apesar do número pipocante de blogs que surgem por aí (ei!). E se há propósito, vamos lá!
Os livros da Não Editora ainda não aportaram no Espírito Santo. Compre no site. 
Leia o es-ton-te-an-te primeiro capítulo do Sinuca Embaixo D’água. 
Aqui o cau-da-lo-so primeiro capítulo do Liberdade.
Aqui o André Conti fala do Liberdade: (ie. 


http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Otnoe8PY21Y)

NÃO-FICÇÃO #3

Então saiu mais um bom Caderno de Não-Ficção #3 da Não Editora. Dessa vez, a cereja no topo do bolo fica por conta da entrevista com André Conti (editor do Quadrinhos da Cia), um texto masturbatório e não menos autoreferente (como não poderia ser?) sobre o novo, e consagrado, e muito vendido, e contestado Liberdade e a literatura brasileira (Jonathan Franzen e a literatura pau-mole): “me chama a atenção como 90% dos livros recentes brasileiros têm ao redor de 150 páginas. É quase como uma receita, uma equação: 150 páginas, o fôlego do autor ou do leitor. Não sei qual o pior cenário”. 

Até aqui estou contra poréns.  Mas me parece muito distanciamento da produção contemporânea (vulgo citar as qualidades do Cristóvão Tezza e da jovem, e gaúcha, e chapa da Não Editora – que publicou uma primeira compilação de contos – Carol Bensimon – ok! o Sinuca Embaixo D’água é realmente bom, mas é apenas um outro livro de pouco mais de 150 páginas também). E um eterno reverenciar, quase pré-canônico do especial David Foster Wallace do #1 e o destaque aoSebald no #2.

Um texto lá do Todo Prosa, do Sérgio Rodrigues, pra fazer circular (ainda mais) a confusão, contrapondo o texto do Caderno: “Meu incômodo com o franzenismo é de outra ordem. A enfática fulanização do argumento estético que sustenta esse circo pode dar ao leitor desavisado duas impressões erradas: a de que não há outros cultores contemporâneos da boa arte narrativa e a de que o único modo de cultuá-la é aquele, de uma grandiloquência aparentada do realismo muralista, que Jonathan Franzen emprega.”

Ainda falando mal, mas em outro texto: “Quase tudo parece estar no pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito, não por acaso os tempos verbais preferidos por quem tem pressa de sobrevoar cenas e montar logo um “painel social” – não é este, afinal, o grande bordão de venda do livro? Contrariando aquela velha lei das oficinas de ficção, Franzen conta (tells) mais do que mostra (shows). Na fórmula de Tchecov, opta por dizer que a lua está brilhando em vez de apresentar seu reflexo num caco de vidro.”


E, por último, um texto muito longo e muito bom do Franzen sobre o Facetook, comportamento, amor e nossos tempos, no Link, do Estadão.

“Ainda assim, a dor machuca, mas não mata. Quando levamos em consideração a alternativa – um sonho anestesiado de autossuficiência, incentivado e aprovado pela tecnologia – a dor emerge como produto natural e indicador natural de que estamos vivos num mundo resistente. Levar uma vida indolor equivale a não viver. Até dizer a si mesmo, “Ah, vou deixar para depois esta história de amor e de dor, talvez para depois dos 30 anos” é como resignar-se a passar 10 anos simplesmente ocupando espaço no planeta e consumindo seus recursos. Resignar-se a ser um consumidor (palavra que emprego no seu sentido mais pejorativo).”

No mais, nos faltam outros ‘Cadernos’, apesar do número pipocante de blogs que surgem por aí (ei!). E se há propósito, vamos lá!

Os livros da Não Editora ainda não aportaram no Espírito Santo. Compre no site. 

Leia o es-ton-te-an-te primeiro capítulo do Sinuca Embaixo D’água. 

Aqui o cau-da-lo-so primeiro capítulo do Liberdade.

Aqui o André Conti fala do Liberdade: (ie. 

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Otnoe8PY21Y)

O ROMANCE BRASILEIRO NA ERA DO MARKETING
A nota, discreta, saiu no “Diário Oficial da União”: desde o último dia 13, uma produtora paulistana está autorizada a captar recursos, via Lei Rouanet, para financiar viagens cujo objetivo é inspirar um grupo de autores a escrever romances.
Em tempos não muito distantes, recorrer ao Ministério da Cultura para financiar um projeto que parecia mais vocacionado para o Ministério do Turismo inflamou tanto os ânimos que o pai da ideia acabou desistindo do pleito e financiou as viagens do próprio bolso.
Era 2007, e o projeto, o Amores Expressos, agitou rancores e protagonizou os dias mais conturbados desde que o meio literário brasileiro descobriu a internet. Um dos questionamentos dizia respeito à legitimidade de uma literatura financiada por fora do esquema tradicional, de contratos de edição, vendas e direitos autorais de livros.
Em outras palavras, quando a feitura de romances se acerta entre escritores, produtoras e ministérios, uma figura pode parecer dispensável ou obsoleta: o leitor.
ISENÇÃO FISCAL
O novo projeto, chamado Redescobrindo o Brasil, sai com alguns pés de vantagem. O aval do governo para captação de R$ 672 mil via isenção fiscal já foi dado. Como prevê a Lei Rouanet, o dinheiro ainda não está garantido, já que antes os produtores precisam angariar o interesse de empresas em investir. Isso até pode ser facilitado pelo fato de as viagens serem dentro do país, e não para o exterior, como era no Amores Expressos.
O Redescobrindo o Brasil é uma espécie de filhote mais modesto do Amores Expressos, embora a comparação não seja do agrado da escritora Adriana Lisboa, uma das idealizadoras da iniciativa.
“Pensei no projeto quando a editora americana Whereabouts me convidou a ter contos no livro ‘Brazil, a Traveler’s Literary Companion’, junto com Clarice Lispector, Dalton Trevisan e outros”, disse a autora à Folha. “Eles fizeram um mapeamento literário organizado por regiões usando os contos. Imaginei que seria interessante algo do gênero com livros inteiros.”
Goste-se ou não da comparação, é inegável que o novo projeto se beneficia da porta aberta pelo projeto de 2007, que tanta dor de cabeça causou ao produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features.
A curadoria é dividida entre Adriana e o ficcionista Luiz Ruffato. Ao todo, a coleção deve ter 14 romances escritos por 14 autores convidados a passar 15 dias em 14 diferentes capitais brasileiras. A ideia é que todos estejam publicados e traduzidos para a Feira de Frankfurt de 2013, quando o Brasil será o país homenageado.
INEDITISMO
Com o Amores Expressos, Teixeira inaugurou um método de produção de livros no Brasil. “De certa maneira, ele pagou o preço do ineditismo”, avalia o ficcionista e jornalista Sérgio Rodrigues. “Era a primeira vez que se fazia um projeto de ativamente produzir livros, com um projeto de marketing mais amplo envolvido.”
Na ocasião, Rodrigues fez críticas ao projeto em seu blog, Todoprosa, hoje no portal da “Veja”. A caixa de comentários do blog virou, como diz Rodrigues, “uma caixa de ressonância de malucos de todo o Brasil, contra e a favor”. “Até agora, o Rodrigo estava correndo meio sozinho nisso. Há certa ousadia, porque é um mercado originalmente de vendas fracas”, diz.
A notícia foi dada pela Ilustrada, em março de 2007, em texto não propriamente crítico, mas sob o provocativo título “Bonde das letras”. Uma semana depois, a Ilustrada voltou ao tema, desta vez buscando classificar as diferentes irregularidades em que o projeto de Teixeira poderia incorrer, incluindo a acusação de configurar “formação de panelinhas”.
A “Veja” publicou reportagem ácida com caricaturas dos participantes, entre os quais estão alguns dos autores mais respeitados do país, como Bernardo Carvalho, Sérgio Sant’Anna e o próprio Ruffato.
O valor orçado para o Amores Expressos era de mais de R$ 1 milhão. Uma solicitação chegou a ser feita ao MinC, mas o pedido foi arquivado sem que Teixeira tivesse dado entrada nos documentos. “Era um direito a que eu tinha, o de tentar, mas preferi desistir.”
FILMES
No fim, tudo ficou em R$ 510 mil, saídos dos bolsos dele e de dois sócios. A estratégia era clara: obter 16 romances que pudessem render filmes —a cessão de direitos cinematográficos fazia parte do contrato. Teixeira diz que, se três dos livros virarem filmes, o projeto “já se paga”: “Nunca foi a ideia fazer 16 filmes. Queria pautar para ver o que resultava disso”.
Cada viagem saiu por volta de R$ 30 mil, incluindo direitos autorais e custos de viagem, com cachê. No Redescobrindo o Brasil, cada livro sairá por R$ 48 mil, aí incluídos os custos de edição, que não estavam contemplados no projeto de Teixeira.
Os romances da série Amores Expressos vêm saindo pela Companhia das Letras, que não é obrigada a publicar todos e se encarrega dos custos editoriais, como faz com qualquer outro de seus livros.
Já no Redescobrindo o Brasil, a ideia é que a editora carioca Casa da Palavra publique todos os romances, segundo Adriana Lisboa. “Estamos levando fé de que os 14 vão escrever livros dignos disso.”
Ela própria não entrou em acordo com a Companhia das Letras e deixou inédito o seu romance do Amores Expressos, ambientado em Paris. O mesmo aconteceu com André de Leones, que lançou pela Rocco o único livro do projeto ambientado no Brasil (São Paulo) —e que está entre os autores do projeto de Adriana e Ruffato.
No Redescobrindo o Brasil, a cláusula audiovisual não está inclusa. “Se os livros despertarem o interesse de cineastas, ótimo”, diz Adriana. A terceira ponta é a agente literária Lúcia Riff, que tem autores agenciados entre os convocados: Beatriz Bracher (Belém), Maria Valéria Rezende (Porto Alegre), Lívia Garcia-Roza (Salvador), João Anzanello Carrascoza (Natal), Flávio Carneiro (São Paulo) e a própria Adriana, que não vai escrever.
CENA
“O importante é movimentar o mercado. Há gente criticando, outros projetos aparecendo. Mesmo que nenhum dos livros fosse uma obra-prima, o Amores Expressos já teria esse mérito”, diz o escritor Ronaldo Bressane, amigo de Rodrigo Teixeira que não entrou em nenhum dos dois projetos.
O Amores Expressos ainda não se pagou. Dois filmes estão em pré-produção: “Cordilheira”, baseado no livro de Daniel Galera (Buenos Aires), tem previsão de ser filmado no fim de 2012, por Carolina Jabor. Outro, que ainda demora, é “O Filho da Mãe”, adaptação do romance de Bernardo Carvalho ambientado em Moscou. Dirigido por Karim Aïnouz, não terá vínculo com dinheiro nacional, diz Teixeira, já que não há personagens brasileiros.
Além disso, o filme baseado no livro de Ruffato (Lisboa) está sendo realizado por uma produtora portuguesa. Segundo Teixeira, há gente interessada no de Chico Mattoso (Havana) e no de Sérgio Sant’Anna (Praga). O de Joca Reiners Terron (Cairo) e o de Lourenço Mutarelli (Nova York) Teixeira diz querer ele mesmo produzir.
EXTERIOR
Criticada no Brasil, a iniciativa foi elogiada no exterior. “Os estrangeiros valorizaram mais. Recebi e-mails de editores e autores enaltecendo a ideia das viagens e o fato de isso ser feito com vista a adaptações cinematográficas”, diz Teixeira.
Segundo ele, isso animou o escritor americano Denis Johnson a vender os direitos de “Ninguém se Mexe” (Companhia das Letras) à RT Features. “Além disso, fechamos parcerias com Scott Rudins, produtor de cinema que investe em livros, e com a McSweeney’s, editora do Dave Eggers.”
O pedido inicial do Redescobrindo o Brasil ao MinC foi de R$ 1 milhão. Como foram aprovados R$ 672 mil, foi preciso pensar em cortes cá e lá. Com isso, da ideia inicial de duas viagens de 15 dias por autor, restou uma. Cada viagem está orçada em R$ 6.000, mais um cachê de R$ 10 mil por escritor.
Se o Amores Expressos foi criticado por focar um tema anacrônico na literatura no século 21, seu correspondente nacional incorre num outro risco —terão os autores coragem de retratar mazelas de locais visitados, tendo em vista que empresas locais patrocinariam os títulos, ou farão relatos para o turismo local gostar?
CRÍTICA
Resta saber se o Amores Expressos produziu boa literatura. Para Sérgio Rodrigues, dos sete livros que saíram até agora, o resultado ficou “um pouco abaixo do investimento e do barulho que se fez”. “Não me parece que tenha saído nenhum grande livro, fora o do Bernardo Carvalho, que faria um grande livro de qualquer jeito.”
O crítico e poeta Alcides Villaça, que leu só o de Ruffato, avalia que “o tema do amor entrou lateralmente. O tema que conta é o do desajuste cultural vivido pelo brasileiro pobre e desenraizado em Lisboa”. O colunista da Folha Manuel da Costa Pinto diz que, “se a coisa da história de amor era uma brincadeira que soava anacrônica, os autores souberam lidar com isso de maneira irônica. Foi uma brincadeira que eles transgrediram.”
O projeto rendeu também uma resposta galhofeira do pernambucano Marcelino Freire, escritor tão agitador cultural quanto avesso à trabalheira que dá inscrever projetos para captação de recursos pelo MinC. Dele nasceu o “projeto” Que Viagem, pelo qual Marcelino mandou autores desconhecidos a lugares “para onde os escritores realmente vão”, como o “Inferno” e a “Casa da Mãe Joana”. Os livros saem pela independente Edith, que Marcelino estreou no ano passado e pela qual lançou seu recente “Amar É Crime”.
PRODUTORA
Se Rodrigo Teixeira queria obter boas histórias para filmar, o que quer a produtora Motirô, do Redescobrindo o Brasil? “É um escritório recente”, diz um dos sócios, Osvaldo Alvarenga, “montado em janeiro e focado em teatro e literatura”.
Entre os trabalhos da casa, estão uma peça inédita de Ferreira Gullar, “O Homem Como Invenção de Si Mesmo” (2009) e uma série chamada “Aqui Nasceu a Literatura Brasileira”, com fotos de Márcia Zoet e textos de Ruffato, sobre as casas onde nasceram e viveram grandes autores brasileiros. Os dois foram aprovados para captação de recursos via Lei Rouanet.
A meta agora é publicar em julho os dois primeiros livros do Redescobrindo —o de Tatiana Salem Levy (São Luís) e o de Flávio Carneiro—, para já serem apresentados a editores internacionais.
A ver se os autores pegam o ritmo. Quando o Amores Expressos foi anunciado, esperava-se que todos os títulos saíssem em quatro anos. Perto do fim do prazo, menos da metade dos livros encomendados chegou às lojas.
RAQUEL COZERDA FOLHÃO DE SÃO PAULO

O ROMANCE BRASILEIRO NA ERA DO MARKETING

A nota, discreta, saiu no “Diário Oficial da União”: desde o último dia 13, uma produtora paulistana está autorizada a captar recursos, via Lei Rouanet, para financiar viagens cujo objetivo é inspirar um grupo de autores a escrever romances.

Em tempos não muito distantes, recorrer ao Ministério da Cultura para financiar um projeto que parecia mais vocacionado para o Ministério do Turismo inflamou tanto os ânimos que o pai da ideia acabou desistindo do pleito e financiou as viagens do próprio bolso.

Era 2007, e o projeto, o Amores Expressos, agitou rancores e protagonizou os dias mais conturbados desde que o meio literário brasileiro descobriu a internet. Um dos questionamentos dizia respeito à legitimidade de uma literatura financiada por fora do esquema tradicional, de contratos de edição, vendas e direitos autorais de livros.

Em outras palavras, quando a feitura de romances se acerta entre escritores, produtoras e ministérios, uma figura pode parecer dispensável ou obsoleta: o leitor.

ISENÇÃO FISCAL

O novo projeto, chamado Redescobrindo o Brasil, sai com alguns pés de vantagem. O aval do governo para captação de R$ 672 mil via isenção fiscal já foi dado. Como prevê a Lei Rouanet, o dinheiro ainda não está garantido, já que antes os produtores precisam angariar o interesse de empresas em investir. Isso até pode ser facilitado pelo fato de as viagens serem dentro do país, e não para o exterior, como era no Amores Expressos.

O Redescobrindo o Brasil é uma espécie de filhote mais modesto do Amores Expressos, embora a comparação não seja do agrado da escritora Adriana Lisboa, uma das idealizadoras da iniciativa.

“Pensei no projeto quando a editora americana Whereabouts me convidou a ter contos no livro ‘Brazil, a Traveler’s Literary Companion’, junto com Clarice Lispector, Dalton Trevisan e outros”, disse a autora à Folha. “Eles fizeram um mapeamento literário organizado por regiões usando os contos. Imaginei que seria interessante algo do gênero com livros inteiros.”

Goste-se ou não da comparação, é inegável que o novo projeto se beneficia da porta aberta pelo projeto de 2007, que tanta dor de cabeça causou ao produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features.

A curadoria é dividida entre Adriana e o ficcionista Luiz Ruffato. Ao todo, a coleção deve ter 14 romances escritos por 14 autores convidados a passar 15 dias em 14 diferentes capitais brasileiras. A ideia é que todos estejam publicados e traduzidos para a Feira de Frankfurt de 2013, quando o Brasil será o país homenageado.

INEDITISMO

Com o Amores Expressos, Teixeira inaugurou um método de produção de livros no Brasil. “De certa maneira, ele pagou o preço do ineditismo”, avalia o ficcionista e jornalista Sérgio Rodrigues. “Era a primeira vez que se fazia um projeto de ativamente produzir livros, com um projeto de marketing mais amplo envolvido.”

Na ocasião, Rodrigues fez críticas ao projeto em seu blog, Todoprosa, hoje no portal da “Veja”. A caixa de comentários do blog virou, como diz Rodrigues, “uma caixa de ressonância de malucos de todo o Brasil, contra e a favor”. “Até agora, o Rodrigo estava correndo meio sozinho nisso. Há certa ousadia, porque é um mercado originalmente de vendas fracas”, diz.

A notícia foi dada pela Ilustrada, em março de 2007, em texto não propriamente crítico, mas sob o provocativo título “Bonde das letras”. Uma semana depois, a Ilustrada voltou ao tema, desta vez buscando classificar as diferentes irregularidades em que o projeto de Teixeira poderia incorrer, incluindo a acusação de configurar “formação de panelinhas”.

A “Veja” publicou reportagem ácida com caricaturas dos participantes, entre os quais estão alguns dos autores mais respeitados do país, como Bernardo Carvalho, Sérgio Sant’Anna e o próprio Ruffato.

O valor orçado para o Amores Expressos era de mais de R$ 1 milhão. Uma solicitação chegou a ser feita ao MinC, mas o pedido foi arquivado sem que Teixeira tivesse dado entrada nos documentos. “Era um direito a que eu tinha, o de tentar, mas preferi desistir.”

FILMES

No fim, tudo ficou em R$ 510 mil, saídos dos bolsos dele e de dois sócios. A estratégia era clara: obter 16 romances que pudessem render filmes —a cessão de direitos cinematográficos fazia parte do contrato. Teixeira diz que, se três dos livros virarem filmes, o projeto “já se paga”: “Nunca foi a ideia fazer 16 filmes. Queria pautar para ver o que resultava disso”.

Cada viagem saiu por volta de R$ 30 mil, incluindo direitos autorais e custos de viagem, com cachê. No Redescobrindo o Brasil, cada livro sairá por R$ 48 mil, aí incluídos os custos de edição, que não estavam contemplados no projeto de Teixeira.

Os romances da série Amores Expressos vêm saindo pela Companhia das Letras, que não é obrigada a publicar todos e se encarrega dos custos editoriais, como faz com qualquer outro de seus livros.

Já no Redescobrindo o Brasil, a ideia é que a editora carioca Casa da Palavra publique todos os romances, segundo Adriana Lisboa. “Estamos levando fé de que os 14 vão escrever livros dignos disso.”

Ela própria não entrou em acordo com a Companhia das Letras e deixou inédito o seu romance do Amores Expressos, ambientado em Paris. O mesmo aconteceu com André de Leones, que lançou pela Rocco o único livro do projeto ambientado no Brasil (São Paulo) —e que está entre os autores do projeto de Adriana e Ruffato.

No Redescobrindo o Brasil, a cláusula audiovisual não está inclusa. “Se os livros despertarem o interesse de cineastas, ótimo”, diz Adriana. A terceira ponta é a agente literária Lúcia Riff, que tem autores agenciados entre os convocados: Beatriz Bracher (Belém), Maria Valéria Rezende (Porto Alegre), Lívia Garcia-Roza (Salvador), João Anzanello Carrascoza (Natal), Flávio Carneiro (São Paulo) e a própria Adriana, que não vai escrever.

CENA

“O importante é movimentar o mercado. Há gente criticando, outros projetos aparecendo. Mesmo que nenhum dos livros fosse uma obra-prima, o Amores Expressos já teria esse mérito”, diz o escritor Ronaldo Bressane, amigo de Rodrigo Teixeira que não entrou em nenhum dos dois projetos.

O Amores Expressos ainda não se pagou. Dois filmes estão em pré-produção: “Cordilheira”, baseado no livro de Daniel Galera (Buenos Aires), tem previsão de ser filmado no fim de 2012, por Carolina Jabor. Outro, que ainda demora, é “O Filho da Mãe”, adaptação do romance de Bernardo Carvalho ambientado em Moscou. Dirigido por Karim Aïnouz, não terá vínculo com dinheiro nacional, diz Teixeira, já que não há personagens brasileiros.

Além disso, o filme baseado no livro de Ruffato (Lisboa) está sendo realizado por uma produtora portuguesa. Segundo Teixeira, há gente interessada no de Chico Mattoso (Havana) e no de Sérgio Sant’Anna (Praga). O de Joca Reiners Terron (Cairo) e o de Lourenço Mutarelli (Nova York) Teixeira diz querer ele mesmo produzir.

EXTERIOR

Criticada no Brasil, a iniciativa foi elogiada no exterior. “Os estrangeiros valorizaram mais. Recebi e-mails de editores e autores enaltecendo a ideia das viagens e o fato de isso ser feito com vista a adaptações cinematográficas”, diz Teixeira.

Segundo ele, isso animou o escritor americano Denis Johnson a vender os direitos de “Ninguém se Mexe” (Companhia das Letras) à RT Features. “Além disso, fechamos parcerias com Scott Rudins, produtor de cinema que investe em livros, e com a McSweeney’s, editora do Dave Eggers.”

O pedido inicial do Redescobrindo o Brasil ao MinC foi de R$ 1 milhão. Como foram aprovados R$ 672 mil, foi preciso pensar em cortes cá e lá. Com isso, da ideia inicial de duas viagens de 15 dias por autor, restou uma. Cada viagem está orçada em R$ 6.000, mais um cachê de R$ 10 mil por escritor.

Se o Amores Expressos foi criticado por focar um tema anacrônico na literatura no século 21, seu correspondente nacional incorre num outro risco —terão os autores coragem de retratar mazelas de locais visitados, tendo em vista que empresas locais patrocinariam os títulos, ou farão relatos para o turismo local gostar?

CRÍTICA

Resta saber se o Amores Expressos produziu boa literatura. Para Sérgio Rodrigues, dos sete livros que saíram até agora, o resultado ficou “um pouco abaixo do investimento e do barulho que se fez”. “Não me parece que tenha saído nenhum grande livro, fora o do Bernardo Carvalho, que faria um grande livro de qualquer jeito.”

O crítico e poeta Alcides Villaça, que leu só o de Ruffato, avalia que “o tema do amor entrou lateralmente. O tema que conta é o do desajuste cultural vivido pelo brasileiro pobre e desenraizado em Lisboa”. O colunista da Folha Manuel da Costa Pinto diz que, “se a coisa da história de amor era uma brincadeira que soava anacrônica, os autores souberam lidar com isso de maneira irônica. Foi uma brincadeira que eles transgrediram.”

O projeto rendeu também uma resposta galhofeira do pernambucano Marcelino Freire, escritor tão agitador cultural quanto avesso à trabalheira que dá inscrever projetos para captação de recursos pelo MinC. Dele nasceu o “projeto” Que Viagem, pelo qual Marcelino mandou autores desconhecidos a lugares “para onde os escritores realmente vão”, como o “Inferno” e a “Casa da Mãe Joana”. Os livros saem pela independente Edith, que Marcelino estreou no ano passado e pela qual lançou seu recente “Amar É Crime”.

PRODUTORA

Se Rodrigo Teixeira queria obter boas histórias para filmar, o que quer a produtora Motirô, do Redescobrindo o Brasil? “É um escritório recente”, diz um dos sócios, Osvaldo Alvarenga, “montado em janeiro e focado em teatro e literatura”.

Entre os trabalhos da casa, estão uma peça inédita de Ferreira Gullar, “O Homem Como Invenção de Si Mesmo” (2009) e uma série chamada “Aqui Nasceu a Literatura Brasileira”, com fotos de Márcia Zoet e textos de Ruffato, sobre as casas onde nasceram e viveram grandes autores brasileiros. Os dois foram aprovados para captação de recursos via Lei Rouanet.

A meta agora é publicar em julho os dois primeiros livros do Redescobrindo —o de Tatiana Salem Levy (São Luís) e o de Flávio Carneiro—, para já serem apresentados a editores internacionais.

A ver se os autores pegam o ritmo. Quando o Amores Expressos foi anunciado, esperava-se que todos os títulos saíssem em quatro anos. Perto do fim do prazo, menos da metade dos livros encomendados chegou às lojas.

RAQUEL COZER
DA FOLHÃO DE SÃO PAULO

NÃO HÁ NADA LÁ
O selo Má Companhia, da Cia das Letras, acaba de reeditar o muito aclamado “Não há nada lá”, do Joca Terron.
O terceiro segredo de fátima
[Cristóvão Tezza - publicado originalmente na Cult 54, em janeiro de 2002]
O concurso promovido pela Cult, na categoria romance, indicou a presença dominante de quatro vertentes literárias, temáticas e formais. É claro que apareceram bons e maus textos em todas elas, e às vezes a mesma obra tocava em mais de uma linha, apenas reforçando o fato de que a boa literatura sempre escapa dos ideários fechados. Essa frágil classificação, esboçada aqui mais por uma primeira impressão do leitor do que pelo rigor da ciência, mostra em primeiro lugar a persistência no Brasil de uma mitologia rural – a idéia de um país natural, autêntico, puro, não contaminado, mesmo mágico, continua viva, realizando-se numa linguagem típica, na transcendência poética ou no picaresco; Guimarães Rosa, Jorge Amado e José Cândido de Carvalho seriam boas referências dessa linha.
Um segundo rumo vai em direção oposta: o da mitologia urbana, sob influência da televisão e do cinema, privilegiando a vida sem raízes, o impacto das grandes cidades no cotidiano, a violência e a solidão, com o predomínio do indivíduo (socialmente localizado) e da narração pessoal. A referência imediata aqui seria Rubem Fonseca, mas transparece nessa linha a presença subterrânea de uma tradição naturalista que vem de longe, de O Cortiço de Aloísio Azevedo a O Ventre de Cony, passando por várias formas e estilos de representação da “vida como ela é”. Uma terceira vertente é a intimista, o poder da memória em se fazer literatura, tanto a memória fragmentária das impressões pessoais (da infância, do tempo perdido, da inocência), intimismo cuja referência maior poderia ser Clarice Lispector, quanto a memória social, retomando os anos da ditadura numa polarização ainda sem distanciamento, e aqui Quarup, de Antonio Callado, seria o marco mais forte. Finalmente, aparece a literatura entendida como oficina do texto, o que normalmente se chama literatura experimental, um título em geral inadequado pelo que sugere de inacabado, ou mesmo apenas mal-acabado: aquilo que se experimenta como treinamento ou exercício para se chegar, quem sabe, ao objeto de arte. Há de tudo nessa gaveta; como pontos em comum, a concepção da própria literatura como o objeto principal do texto, a tendência a fundir prosa e poesia e o apagamento do sujeito psicológico, que cede lugar à presença mais fria da composição formal. Em geral, o leitor verá também os andaimes da obra enquanto ela se ergue, e, no extremo, a mensagem reiterada de que o que se está lendo é um objeto de artifício.
Você poderá gostar também de: Corpo Presente, de J. P. Cuenca e Snuff, de Chuck Palahniuk.
É exatamente esse o território em que se move o romance “Não há nada lá”, de Joca Reiners Terron, menção honrosa do concurso, quando então levava o título mais desconcertante de Retrato da Serpente menos a Presa. Numa composição bem amarrada, Joca Terron coloca juntos o célebre escritor beat William Burroughs (aportuguesado, não por acaso, como Guilherme Burgos), Raymond Roussel, um parisiense exótico que vivia num trailer, o brasileiro Torquato Neto, um certo Isidore Ducasse, que ficaria famoso como conde de Lautréamont, o poeta Arthur Rimbaud, o mítico pistoleiro Billy-the-Kid, o estranhíssimo poeta inglês Aleister Crowley e ainda Lúcia, a menina que ouviu com os irmãos os segredos de Fátima. Na edição em livro, o autor acrescentou um capítulo em que se comentam as biografias dos personagens, o que representa mais um registro de linguagem na composição – o texto que se comenta a si mesmo, com o jargão da enciclopédia.
A narração se inicia com o aparecimento fantástico de um tesseract, uma forma geométrica que William Burroughs vê no dia de sua morte, a partir de um livro que ele joga para o alto: “Não me parece ainda haver tempo para você neste mundo, meu velho. A perfeição, simplesmente, de uma hora para outra, deixou de ter lugar para nós. Me pergunto como seria a morte do livro. Diga-me, como morrem os objetos perfeitos?” Daí em diante, montando azulejos cortados com precisão no tempo e no espaço, tendo sempre o livro mágico como referência, Terron promove o encontro do Papa Pio XI com Raimundo Roussel em 1926, faz Torquato Neto conversar com Jaime Hendrix em 1970, flagra Ducasse no compartimento de um trem em 1867 furtando um exemplar de As Flores do Mal, “com um brilho fantasmagórico na capa”, de um “pederasta ancião”, assiste ao encontro de Rimbaud com o xerife Patrício Garret em 1881, vê Alistério Crowley se aproximando de Fernando Pessoa em 1930 e daí por diante. Em suma, a narração de “Não há nada lá” é um canto de paixão à literatura – “um viva à literatura, dizia o Bispo, somente a literatura, fundadora da realidade que conhecemos através da linguagem, construtura de mundos”. Ponto de confluência das histórias intercaladas, o terceiro segredo de Fátima, confessado a um certo bispo de Macau, vai explicar por vias tortas o sotaque português na tradução dos nomes estrangeiros.
Há uma graça que percorre o livro, fruto do cruzamento entre as situações surreais e o tom formal do narrador, de onde emerge por contraste uma hilaridade paródica. As convenções sociais tipificadas na linguagem vão se cobrindo sempre de caricatura: “O Santíssimo Padre Pio XI, meneando com precisão a isca lançada ao seu anfitrião, retirou uma espécie de sutiã que envolvia suas tetas volumosas e, sem mais delongas, mergulhou na espuma da banheira, deixando apenas a monumental barriga à altura da superfície, cabeçorra de um cachalote esguichando água no início de uma dança do acasalamento.”
A literatura de Terron é escancaradamente lúdica – Não há nada lá é um texto que diverte e se diverte – e, como sinal de sua geração (Terron nasceu em 68, quando o sonho, de fato, acabava), percorre todas as linguagens como quem brinca, sem se queimar com nenhuma. Assim, sua ponte para o passado salta as duas últimas décadas e reencontra, por exemplo, Cortázar e seus jogos de armar, no que eles têm de mais pesado (a dimensão ideológica). Do ingrediente mais leve, ressoa algo dos “modos de usar” de Georges Perec, a frieza puramente sintática, mas prazerosa, de armar o impossível. Nesse jogo, o controle remoto do autor olha em todas as direções ao mesmo tempo, o que é outro traço contemporâneo. A mitologia das gerações malditas, de Baudelaire a Burroughs, é agora retomada sem o vínculo terrível com a revolta essencial, visceral, sem acerto ou compromisso possível, que afinal está na origem da droga, do suicídio, da marginalidade assumida, da utopia, da negação, da inadequação absoluta ao mundo da ordem. É um imaginário já sem a dimensão da performance, figura de vitrine, atravessado pelo humor e não pela tragédia, que se realiza não no risco da praça pública, mas no limite da página. O livro, o objeto perfeito que Burroughs arremessa ao céu, a forma, é o ideário de referência, a marca de uma encruzilhada entre a memória e o futuro. Uma encruzilhada que vai, no embalo do fascínio pelo fragmento, assumindo o emprego paródico de linguagens estratificadas, dos chavões convencionais à gíria cotidiana, até se apropriar dos grafismos, flertar com a informação visual como reforço do texto, e mesmo com a “informação real”, uma espécie de nota de rodapé em forma de verbetes de enciclopédia.
O que se destaca no livro é o fato de que, mantendo-se fiel à exploração da experiência, Terron não se perde nela e, de fato, não abdica de um eixo a partir do qual todo o resto ganha substância. E, como toda boa literatura, mesmo quando imatura, ele nos diz menos sobre o seu assunto e muito mais sobre a diferença do seu olhar.

NÃO HÁ NADA LÁ

O selo Má Companhia, da Cia das Letras, acaba de reeditar o muito aclamado “Não há nada lá”, do Joca Terron.

O terceiro segredo de fátima

[Cristóvão Tezza - publicado originalmente na Cult 54, em janeiro de 2002]

O concurso promovido pela Cult, na categoria romance, indicou a presença dominante de quatro vertentes literárias, temáticas e formais. É claro que apareceram bons e maus textos em todas elas, e às vezes a mesma obra tocava em mais de uma linha, apenas reforçando o fato de que a boa literatura sempre escapa dos ideários fechados. Essa frágil classificação, esboçada aqui mais por uma primeira impressão do leitor do que pelo rigor da ciência, mostra em primeiro lugar a persistência no Brasil de uma mitologia rural – a idéia de um país natural, autêntico, puro, não contaminado, mesmo mágico, continua viva, realizando-se numa linguagem típica, na transcendência poética ou no picaresco; Guimarães Rosa, Jorge Amado e José Cândido de Carvalho seriam boas referências dessa linha.

Um segundo rumo vai em direção oposta: o da mitologia urbana, sob influência da televisão e do cinema, privilegiando a vida sem raízes, o impacto das grandes cidades no cotidiano, a violência e a solidão, com o predomínio do indivíduo (socialmente localizado) e da narração pessoal. A referência imediata aqui seria Rubem Fonseca, mas transparece nessa linha a presença subterrânea de uma tradição naturalista que vem de longe, de O Cortiço de Aloísio Azevedo a O Ventre de Cony, passando por várias formas e estilos de representação da “vida como ela é”. Uma terceira vertente é a intimista, o poder da memória em se fazer literatura, tanto a memória fragmentária das impressões pessoais (da infância, do tempo perdido, da inocência), intimismo cuja referência maior poderia ser Clarice Lispector, quanto a memória social, retomando os anos da ditadura numa polarização ainda sem distanciamento, e aqui Quarup, de Antonio Callado, seria o marco mais forte. Finalmente, aparece a literatura entendida como oficina do texto, o que normalmente se chama literatura experimental, um título em geral inadequado pelo que sugere de inacabado, ou mesmo apenas mal-acabado: aquilo que se experimenta como treinamento ou exercício para se chegar, quem sabe, ao objeto de arte. Há de tudo nessa gaveta; como pontos em comum, a concepção da própria literatura como o objeto principal do texto, a tendência a fundir prosa e poesia e o apagamento do sujeito psicológico, que cede lugar à presença mais fria da composição formal. Em geral, o leitor verá também os andaimes da obra enquanto ela se ergue, e, no extremo, a mensagem reiterada de que o que se está lendo é um objeto de artifício.

Você poderá gostar também de: Corpo Presente, de J. P. Cuenca e Snuff, de Chuck Palahniuk.

É exatamente esse o território em que se move o romance “Não há nada lá”, de Joca Reiners Terron, menção honrosa do concurso, quando então levava o título mais desconcertante de Retrato da Serpente menos a Presa. Numa composição bem amarrada, Joca Terron coloca juntos o célebre escritor beat William Burroughs (aportuguesado, não por acaso, como Guilherme Burgos), Raymond Roussel, um parisiense exótico que vivia num trailer, o brasileiro Torquato Neto, um certo Isidore Ducasse, que ficaria famoso como conde de Lautréamont, o poeta Arthur Rimbaud, o mítico pistoleiro Billy-the-Kid, o estranhíssimo poeta inglês Aleister Crowley e ainda Lúcia, a menina que ouviu com os irmãos os segredos de Fátima. Na edição em livro, o autor acrescentou um capítulo em que se comentam as biografias dos personagens, o que representa mais um registro de linguagem na composição – o texto que se comenta a si mesmo, com o jargão da enciclopédia.

A narração se inicia com o aparecimento fantástico de um tesseract, uma forma geométrica que William Burroughs vê no dia de sua morte, a partir de um livro que ele joga para o alto: “Não me parece ainda haver tempo para você neste mundo, meu velho. A perfeição, simplesmente, de uma hora para outra, deixou de ter lugar para nós. Me pergunto como seria a morte do livro. Diga-me, como morrem os objetos perfeitos?” Daí em diante, montando azulejos cortados com precisão no tempo e no espaço, tendo sempre o livro mágico como referência, Terron promove o encontro do Papa Pio XI com Raimundo Roussel em 1926, faz Torquato Neto conversar com Jaime Hendrix em 1970, flagra Ducasse no compartimento de um trem em 1867 furtando um exemplar de As Flores do Mal, “com um brilho fantasmagórico na capa”, de um “pederasta ancião”, assiste ao encontro de Rimbaud com o xerife Patrício Garret em 1881, vê Alistério Crowley se aproximando de Fernando Pessoa em 1930 e daí por diante. Em suma, a narração de “Não há nada lá” é um canto de paixão à literatura – “um viva à literatura, dizia o Bispo, somente a literatura, fundadora da realidade que conhecemos através da linguagem, construtura de mundos”. Ponto de confluência das histórias intercaladas, o terceiro segredo de Fátima, confessado a um certo bispo de Macau, vai explicar por vias tortas o sotaque português na tradução dos nomes estrangeiros.

Há uma graça que percorre o livro, fruto do cruzamento entre as situações surreais e o tom formal do narrador, de onde emerge por contraste uma hilaridade paródica. As convenções sociais tipificadas na linguagem vão se cobrindo sempre de caricatura: “O Santíssimo Padre Pio XI, meneando com precisão a isca lançada ao seu anfitrião, retirou uma espécie de sutiã que envolvia suas tetas volumosas e, sem mais delongas, mergulhou na espuma da banheira, deixando apenas a monumental barriga à altura da superfície, cabeçorra de um cachalote esguichando água no início de uma dança do acasalamento.”

A literatura de Terron é escancaradamente lúdica – Não há nada lá é um texto que diverte e se diverte – e, como sinal de sua geração (Terron nasceu em 68, quando o sonho, de fato, acabava), percorre todas as linguagens como quem brinca, sem se queimar com nenhuma. Assim, sua ponte para o passado salta as duas últimas décadas e reencontra, por exemplo, Cortázar e seus jogos de armar, no que eles têm de mais pesado (a dimensão ideológica). Do ingrediente mais leve, ressoa algo dos “modos de usar” de Georges Perec, a frieza puramente sintática, mas prazerosa, de armar o impossível. Nesse jogo, o controle remoto do autor olha em todas as direções ao mesmo tempo, o que é outro traço contemporâneo. A mitologia das gerações malditas, de Baudelaire a Burroughs, é agora retomada sem o vínculo terrível com a revolta essencial, visceral, sem acerto ou compromisso possível, que afinal está na origem da droga, do suicídio, da marginalidade assumida, da utopia, da negação, da inadequação absoluta ao mundo da ordem. É um imaginário já sem a dimensão da performance, figura de vitrine, atravessado pelo humor e não pela tragédia, que se realiza não no risco da praça pública, mas no limite da página. O livro, o objeto perfeito que Burroughs arremessa ao céu, a forma, é o ideário de referência, a marca de uma encruzilhada entre a memória e o futuro. Uma encruzilhada que vai, no embalo do fascínio pelo fragmento, assumindo o emprego paródico de linguagens estratificadas, dos chavões convencionais à gíria cotidiana, até se apropriar dos grafismos, flertar com a informação visual como reforço do texto, e mesmo com a “informação real”, uma espécie de nota de rodapé em forma de verbetes de enciclopédia.

O que se destaca no livro é o fato de que, mantendo-se fiel à exploração da experiência, Terron não se perde nela e, de fato, não abdica de um eixo a partir do qual todo o resto ganha substância. E, como toda boa literatura, mesmo quando imatura, ele nos diz menos sobre o seu assunto e muito mais sobre a diferença do seu olhar.

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